Papa

06/05/2011

Encolher segundo após segundo. Segundo os destinos despidos da sua futurologia aquática.  Desmembrando o berço de segunda mão, ninho de nós, refugiados, todos filhos de mães – sempre desconhecidas. Água rasa crespando o estômago toda vez que nos enrijecemos, acastanhados, emblemáticos, todavia fleumáticos. Verdades subindo nas mentiras dessa sofreguidão secular. Será mortal, sei, por que também prevejo no copo d’água. Engulo dessas angústias vinte ponto zero, e por pouco: não é trinta. Levanto, desenrolando as peripécias do meu amanhecer ensolarado, sem medo. A porta da rua, sempre, gueto de escuridões infinitas, cíclicas. Passo a mão nos sonhos. Degolo esse fio que estica fisicamente com a faca de cortar pão. Sua inexpressividade poderia ter sido fulminada por uma morte súbita aos vinte e seis. Aos dezesseis. Mas não, corajoso e nefasto, sobreviveu. Todo lascívia roçava e coloria as portas de falsa paz. Emporcalhava com seiva e água pura as lembranças felizes, talhando o futuro como um carpinteiro cruel. Desde a liberdade sexual, um carrasco ao pôr do sol. Naquele úmido, obscuro e circular buraco fez florescer duas metades. Entretanto, você, na demência, encaixava e arrumava um modo de exilar dentro de si e, ela, definhava n’alma. Jorrando chamas, determinados tipos, também sobreviveram: flores do seu mal. Ele, uma estátua disforme cujos dois lados da face se derretem, afogando no desespero cálido e reminiscente das tuas marcas. Ela, um jardim em chamas onde as passagens triangulares se desfazem à medida que seu eco resplandece. Semi-deus, tornai fugidios todos aqueles que te dizem respeito.

Estrada infinita

09/03/2011

Ainda chove. Depois daquela chuva, te via lindo. Todo derretido e sempre na minha direção. Sim, eu ia paralisando os músculos, contorcendo alguma parte bem interna, talvez essa coisa árida com que tenho sonhado e depois de lembrar abria os olhos. Seus cílios gotejando feito uma cachoeira, não via, mas, sentia. E talvez eu fosse aqueles galhos que correm nas enxurradas, procurando sua mão no meio da multidão, no escuro dos corpos, no meio das serpentinas ensopadas e desses confetes grudados em cada pedaço de tecido. Em mim era assim, a gente ia se guiando. Vazando o bloco no meio disso que ainda transborda esses bueiros e todas as bocas. Alguma coisa sempre se misturava ali no asfalto ou na chuva, desprendia e agarrava feito a coisa mais feia do mundo. Levantava os pés e procurava por outro chão. Queria ter fugido: quase líquida. Embrenhado numa miragem qualquer que não fosse a nossa, tão recortada, espalhada e cuidadosamente sobreposta. Despretensiosamente eu ia indo, pensando nessas todas outras cicatrizes que eu poderia ter descoberto e esculpido, só que não, só vinha você, perfeito, atmosférico.

Seus olhos ardiam. Meus olhos ardem. A fumaça corrói a vida dos bobos, vai girando em torno dos cabelos e pronto, gruda no teto. Abri a janela faz uns cinco minutos. Sou voyeur. Hoje, ontem e amanhã não direi nada. Desespero ameno, solidão dobrada na gaveta da Nan que virou Ian. Eram meus. São seus. O tempo engole, faz bem pra tudo. Faria bem pra tudo, se passasse. Às vezes se da um jeito rápido de estancar o fogo ligeiro que cruza todo corpo. O primeiro modo de se destruir a tristeza. Arrependimento e ataque.

Bem não faz essa coisa de ficar enumerando jeitos, mas a construção começa assim. Direto da planta, antes dos calcanhares. Não rastejo. Sem rastros. Não tateio no espaço, vou direto, num voo rasante com essa boca aberta esperando que o infinito chegue. Nunca. Depois se cansa. Eu me canso. Espero tanto que uma espécie de morte acalma aqui dentro dos músculos roídos. Caio sem saber que cai. Assim como Caio que sempre caia. Caímos de braços dados bem lá no fundo, nessa matéria que começa assim: árida.

Ela nunca dizia por quê. Eu nunca disse por quê. Tanta certeza do próximo modo que colocou as mãos pra trás. Liguei o ventilador nesse frio, só queria espairecer. Esbarrei na pilha de jornais velhos e me caiu nos braços logo a tua notícia, dilacerada, quente, úmida e amarrotada sacudindo o meio de mim. Ainda era leve e pura. Socorria dentre todos meus desamparos. Socorria nossos desamparos, Ana, com meu rosário na mão, alvo e bento.

Adormeci. Não sei. Dormitei em mim. Tudo isso que eu queria. Completamente mesmo que nula ser tua, enguicei na hora de dizer. Do outro lado da cidade, nem sei se chovia; aqueles dedos tortos, daquele corpo alto que estraçalhava a rodela do telefone pressentia e bem aqui ecoou por todo canto a primeira ligação sobre nossa altivez. Elegância. Forma de objeto encarnado em ser humano.

Timidez & Cia

01/03/2011

Côncavo refratário

onde trancafiaram

todas essas memórias

infantis e tolas. Sempre.

 

Cavando o escavado

não é toda vez que

corpos resurgem da

vala. Talvez velada.

Enguias e limão

28/02/2011

Instantes voam enjaulados

como pegadas em torno

de si.

 

Tempo mordaz nesse rio

que corre entre os pés.

 

Oca. Flutua feito uma

folha. Transpassa o

céu num espelho

sem reflexo.

 

Dentro daquele crânio

beija qualquer concreto.

 

Porquanto na absoluta

certeza desliza pelos

ossos.

 

Volta ao metódico

calendário dos olhos

condenada por nunca

nunca tocar.

 

Surge entre os pares

uma ranhura díspar

ainda arranca do peito

aquele ninho de berro

alado.

 

Gotejo e respingos dos

telhados putrefatos.

 

Envolto aos dedos, lacrimeja

um fio de misericórdia.

COMUNICADO

23/02/2011

(ABRE ASPAS)

Começou a fuçar o mal estar. Ia se ajeitando quando percebeu que, não por nada, muito, ou excesso, a fundação começou a flutuar, como uma placa tectônica. Não remoeu, vestiu as roupas, enfiou no bolso cinco reais e o isqueiro. Saiu de casa, qual o problema?

No caminho daquele dia, tinha a nítida impressão de que nada mudaria; só que mudou: choveu. Fevereiro, dias e dias sem chover, temporal de verão. Corre querida, corre. Corpo todo abafado. Qual o fator de relevância, bochechas avermelhadas ou maquiagem borrada?

Entrou. Putinha, mas sem estardalhaço. Desligou tudo por dentro e sorriu. Sorrir no ar é fundamental. Não se fez. Não se faz, aquela inquietude ia crescendo de novo, rapidamente. Apagou e sentiu que se movia mais.

Sabia bem, meu bem, que não sabia falar. Ia com o dedão encostando uma unha na outra. Se comunicava assim. Sem ordem de critério. Pensava em construções: desconstruídas. Não reavaliava, realizava, avalizava. Lembrou do rosário e desesperou. Cadê Nossa Senhora?

Toda confiança. Falsa. Aquilo ia e voltava. Penosa, pensava mesmo naquele ritual dos que escolhia a dedos e olhares e nem sabia por quê. Na cabeça dela, sabia, sempre faltava algo. Doía. Remoia se sempre seria assim, andar silenciosamente, debaixo do céu, guiada apenas por um fim?

Desgraça pouca. Edifício desmorona. Tudo ia tremendo, contorcendo, e, jura, ela quase encarava. Já não ia bem, água rolando degrau abaixo, elevador enguiçado, interfone estragado. Olho marejado, nenhuma palavra. Problema estrutural é grave não é, doutor? Doutor quem?

Sentou e desabou. Tinha mesmo um defeito. Queria uma aspirina. Não, uma AAS infantil, por favor. Problema de vírgula. Ordem. Sobriedade. Vocabulário. Vírgula, vírgula, vírgula, vírgula. Dislexia.

 

(FECHA ASPAS)

Silêncio em Dubai

21/02/2011

No andar de cima o xixi batia na privada com cuidado de moça e escorria cano abaixo, senti que só eu ouvia. O tlec de cada virada do ventilador me enlouquecia cada vez mais e no andar debaixo do meu, a cama batia, batia, batia na parede, sem fim; fiquei pensando porque durante uns segundos e desisti da conclusão. Quis fugir, com as chaves na mão, passei naquela casa de bebidas e comprei um vinho chileno barato. Me dei ao luxo de uma estadia num hotel vagabundo, e sim, eu sei que isso parece coisa de quem vai se matar, mas não, eu não queria. Queria ver você passar, eu passar.

Tinha mesmo é acabado de descobrir, naqueles instantes que pensei sobre o andar debaixo que, meu peso chamava atenção justamente porque eu sou contraditória: não sentia, mas sabia que dentro de mim existia um deserto, e pra acompanhar, só uma árvore disforme. Lembrei daquele gesto em libras de ÁRVORE, me controlei pra não fazer, já que não sabia como era deserto; e talvez nem precisasse de árvore e deserto, deserto sou eu.

Tudo bem. Posso começar? Quero inundar tudo, mas não sei por onde começar, digo, por onde sai, por onde sair, por onde ir. Vou andando então, distribuindo uns pedaços de mim pra ver se sai. Isso é coisa de gente entupida. Chego perto da janela, olho tudo, nenhuma pessoa, nenhum coqueiro, nenhuma praia, nada de bonito. Descobri e o que faço com isso? Escorrego bem devagar pra cama e tento alcançar o céu com as pernas, como se fosse uma pinça essas pernas e formassem a torre de babel. Falo em espanhol. De olhos fechados passo a mal, nem sei de que, acho que de silêncio e te ligo. Só quero te ver, vem dormir comigo.

Natural seria se você negasse. Só que não, não negou. E depois disso tive vontade de quebrar tudo em volta, destruir meu Oasis, minha tristeza, fazer essa brisa virar um furacão e por dentro aquietar. Sabe mesmo o que queria? Desfazer esse nó na garganta, parar por um momento de ver minhas migalhas e o criado-mudo branquinho branquinho. Nem pensei, acho que adormeci. A porta sem tranca e você entrou; tudo que eu não queria ver. Enrolei meu corpo no daqueles que já passaram por aqui instintivamente, e, você deitou, bem do nosso lado. Percebi que era mesmo lindo, quase acordada, sabia que tinha sonhado com você e, no sonho, você fazia um movimento estranho, esfregava o corpo no meu, feito animal. E só com a luz do abajur ligada, segurava minhas mãos: você me ama? Enfiava a cabeça dentro da minha blusa pra esperar a resposta e, eu sentia aquilo, aquilo, que parece uma árvore. Não respondi claramente só porque sabia que você me amava. E não responderia que te amo, ainda não encontrei meu Oasis. Acordei mesmo às quatro da manhã e repeteco. Sua cabeça esticando minha blusa inteira, árvore sem raízes. O que aconteceu enquanto eu dormi? Esmaguei seu coração.